Há limites
Excesso de retórica ameaça plano habitacional do governoO programa habitacional "Minha Casa, Minha Vida", lançado no início do ano pelo presidente Lula, é um bom exemplo do descasamento entre os objetivos propagandísticos do governo federal e a realidade.
O projeto é bom e está em curso, mas deixou-se contaminar desnecessariamente pela retórica pré-eleitoral que mobiliza todo o Ministério. Segundo os números oficiais, 89 mil casas já foram contratadas (embora nem todas estejam sendo construídas).
Não é um número irrelevante para um programa criado há seis meses. Mas é apenas 8,9% da meta mágica de um milhão de casas até 2010. É óbvio que o governo não conseguirá atingi-la. Aliás, será muito difícil chegar-se à meta para este ano, de 400 mil contratações.
Esses números impressionantes só serão alcançados se as contratações minimizarem os critérios técnicos de viabilidade dos empreendimentos e a capacidade de pagamento do comprador.
O problema está precisamente aí: os publicitários oficiais anunciaram uma meta tão irrealista que, para ser cumprida, terá de comprometer a credibilidade de todo o projeto.
Até mesmo o em geral comedido ministro do Planejamento Paulo Bernardo deixou-se levar pelo entusiasmo pré-eleitoral. "As pessoas continuam protocolando os pedidos e os engenheiros estão fazendo as análises".
Ora, com tanto estímulo oficial, é claro que "as pessoas" continuarão procurando os guichês da Caixa Econômica Federal. Isto não significa que terão suas casas, que obterão o financiamento, ou que a prefeitura de sua cidade terá terrenos disponíveis para construir os conjuntos habitacionais.
Há limites até para se inflar as justas expectativas da população com a compra da casa própria. O programa habitacional do governo é uma iniciativa importante demais para ser deixado nas mãos dos marqueteiros.
