‘Grata surpresa’ e ‘Chance perdida’
“Estudantes do Pimentas defendem nas ruas o interesse público”; “Busca pela reeleição coloca Uribe e Chávez no mesmo patamar”Foi uma grata surpresa a modesta passeata de estudantes da região do Pimentas, realizada durante o desfile do Dia da independência, na segunda-feira, na Avenida Paulo Faccini.
Eram alunos de dois cursos preparatórios para vestibulares, e defendiam a abertura de uma faculdade de medicina no campus da Unifesp de Guarulhos.
Melhor dizendo: queriam trazer para a unidade local a mesma excelência nas áreas de medicina, farmácia e biologia que notabilizou a Unifesp paulistana como uma das melhores universidades públicas do Brasil e a primeira colocada no Índice Geral de Cursos do Ministério da Educação.
Enfim, surge uma manifestação estudantil na cidade disposta a reivindicar algo de inteligente, substantivo e de claro interesse público!
A passeata não poderia ser mais oportuna. Especialmente neste momento em que o movimento estudantil brasileiro, quase que sem exceção, deixou-se corromper de forma abjeta pelas verbas oficiais e pela adesão pelega aos propósitos propagandísticos do governo federal e dos partidos que o apoiam.
Os estudantes do Pimentas estão cobertos de razão, pois tocam na ferida aberta desde quando o presidente Lula inaugurou o campus da primeira universidade federal de Guarulhos, no auge da campanha eleitoral de 2006.
Como justificar (num debate intelectual honesto) que o campus tenha sido inaugurado com os seus irrelevantes cursos de filosofia, ciências sociais, história e pedagogia, sem oferecer nenhuma opção na área de biomédica, na qual é imbatível?
Como explicar que o primeiro investimento federal em educação superior em Guarulhos tenha ignorado solenemente o fato de o município ser um polo nacional na produção de fármacos e medicamentos, mas não dispor de um único curso de medicina, ou mesmo de química?
A resposta está no oportunismo das autoridades educacionais. Elas inauguraram o campus Pimentas da Unifesp orientados pela mesma visão estreita que tanto dizem deplorar nas universidades privadas.
A lógica é similar: apostar em cursos baratos, de baixa qualificação acadêmica e distantes da realidade sócio-econômica de Guarulhos. Num caso, visava-se o lucro fácil; noutro, os votos fáceis...
Felizmente, nem todos os estudantes se deixaram levar pelo auto-engano.
Chance perdida
O presidente da Colômbia, Alvaro Uribe, comete um grande equívoco ao buscar alternativas na Constituição do país para obter um terceiro mandato, nivelando-se assim ao venezuelano Hugo Chávez.
O delírio continuista não apenas destroi sua imagem de político sintonizado com as exigências do mundo moderno, construída por Uribe nos últimos anos, como também o impossibilita de se apresentar como contraponto à onda de atraso que parece varrer a América Latina.
Preso à ideia fixa de permanecer no poder, o presidente obteve a aprovação pelo Congresso do projeto de lei que prevê a realização de um referendo sobre seu direito de concorrer mais uma vez à reeleição.
Eleito pela primeira vez em 2002, Uribe já mudou a Constituição para reeleger-se em 2006, mas até há pouco manteve silêncio em relação a seus planos de continuidade, mesmo porque isto não lhe pagava bem. Agora o presidente está praticamente em campanha pelo terceiro mandado e não esconde que será candidato se a proposta for aprovada por um referendo popular.
Pela lei eleitoral colombiana, a consulta precisa ocorrer no máximo até novembro para que o resultado valha já na próxima eleição, marcada para maio que vem. Uribe tem sido hábil nas articulações para transformar o projeto em realidade, mas ainda terá de enfrentar alguns obstáculos.
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