'Voz desafinada' e 'Pelo afastamento'
"Vice-prefeito quer formar uma comissão das vítimas dos deslizamentos"; "Investigações precisam ser feitas com rigor e total isenção"Mais do que mera consequência de fenômenos meteorológicos, os problemas provocados pelas chuvas em Guarulhos, assim como em outras cidades e Estados do Brasil, decorrem principalmente da falta de planejamento e de ações preventivas por parte do poder público. O Plano Diretor de Drenagem já elencava, em 2008, um conjunto de ações e obras para atacar as causas das enchentes em Guarulhos. Tão logo tomou posse, em janeiro de 2009, também em meio a um cenário de transtornos semelhante ao atual, o prefeito Sebastião Almeida colocou a solução deste problema como prioridade de seu governo.
O desabamento recente de três casas e a interdição de mais nove residências no Jardim Santa Paula, além da remoção de cerca de 60 famílias por causa de deslizamentos de terra, em áreas de risco no Jardim Fortaleza, Parque Primavera e Parque Mikail II, são episódios que reforçam a urgência de ações conjuntas da Prefeitura, do Estado e do governo federal para resolver esse problema. Como estava em viagem, Almeida orientou a criação de um grupo de emergência para monitorar a situação, formado pelo vice-prefeito, Carlos Derman, e o secretário de governo, Alencar Santana, além da Defesa Civil, Proguaru e de outros representantes do governo.
O que chamou a atenção foi a falta de sintonia entre os membros deste grupo, principalmente nas reuniões com os moradores e nas declarações desencontradas que produziram. O vice-prefeito ora se precipitou, anunciando reuniões que acabaram não acontecendo, ora tentou transferir a responsabilidade pelos estragos das enchentes na gestão passada - de seu próprio partido.
Por fim, acabou por reconhecer que a responsabilidade pelos deslizamentos, em última instância, é, sim, da Prefeitura, que autorizaria loteamentos em bairros da cidade sem as condições mínimas para edificação de casas.
Como o partido ao qual pertence está no poder em Guarulhos há quase uma década, foi ainda mais surpreendente que, ao final de um encontro na segunda-feira, tenha se limitado a pedir a criação de uma comissão de moradores para acompanhar as medidas da Prefeitura - recurso clássico a que recorre o administrador público quando pouco tem a dizer de concreto a seus eleitores. Atuou mais como um desafinado solista do que como um maestro.
Pelo afastamento
Os indicadores econômicos tendem a confirmar as previsões de que o Brasil consolida cada vez mais sua posição como uma das potências mundiais nos próximos anos, embora o País ainda insista em se comportar como uma republiqueta no terreno político.
Um exemplo flagrante dessa regressão está nos desdobramentos do escândalo que dominou a Câmara Legislativa do Distrito Federal, que consiste no desvio de recursos públicos e no pagamento de propina a deputados da base aliada do governador José Roberto Arruda (sem partido) por empresas privadas.
Apesar das pressões que recebeu e recebe de todos os lados, Arruda, que aparece em vídeos recebendo dinheiro vivo de supostos lobistas, continua firme no cargo, desferindo ameaças contra eventuais adversários.
Para completar, o presidente da Câmara Legislativa, Leonardo Prudente (sem partido), também flagrado ao guardar pacotes de cédulas entre as meias, decidiu reassumir o cargo, a despeito dos pedidos da oposição para que fique afastado até que terminem as investigações.
Esse tipo de atitude seria inadmissível mesmo se ocorresse no mais distante grotão sertanejo, mas acontece exatamente na capital do país, aos olhos perplexos do cidadão e sob marcação cerrada da imprensa, o que só contribui para enxovalhar a já desgastada imagem dos políticos.
As investigações da Polícia Federal revelam indícios de que Arruda, parte de seu secretariado e assessores, deputados e empresários podem ter cometido os crimes de formação de quadrilha, peculato, corrupção passiva e ativa, fraude em licitação, crime eleitoral e crime tributário.
O mínimo que se exige é que os responsáveis sejam enquadrados nos rigores da lei.
