09/01/2010 - 14:24  Atualizado em 09/01/2010 - 15:48

Literatura de cordel luta para sobreviver

Com forte influência nordestina, Guarulhos recebeu como herança de seus imigrantes, esse gênero literário

Crislaine Tomaz
Da Redação

Diego Calvo
CORDELISTA Bosco Maciel abriu a casa para divulgar costumes nordestinos

O desafio em montar rimas de forma assimétrica, contando as sílabas que formarão uma estrofe, é o que atrai poetas e cantadores a se aventurar na criação dos escritos conhecidos como literatura de cordel. Embora sua origem seja portuguesa, no Nordeste brasileiro esse movimento cultural se arraigou de forma tão natural que é de lá que saíram, e ainda saem, os trabalhos e autores mais conhecidos em todo o País.

Com uma forte influência nordestina, haja vista a grande quantidade de "casas do norte" espalhadas pela cidade, Guarulhos também recebeu como herança de seus migrantes a literatura de cordel, que alguns fazem questão de mantê-la viva e forte. Um dos principais representantes e disseminadores deste movimento literário na cidade é o paraibano Bosco Maciel, que mantém sozinho o espaço cultural "Casa dos Cordéis", no Gopoúva.

Ele lamenta que a cidade não tenha um movimento cordelista forte, mas abriu a casa para tentar trazer os costumes nordestinos a Guarulhos. "Somos alguns poucos que lutam para manter essa cultura acesa, pois como nordestinos, mantemos nossos valores culturais. No entanto, além deste trabalho em cima da cultura nordestina, também procuro abrir espaço, na "Casa dos Cordéis", para outras manifestações artísticas", explica Maciel, que também conta com a ajuda da esposa, Marli Doroty, em todos os trabalhos culturais que desenvolve.

Nascido em Cajazeiras, no sertão da Paraíba, Bosco veio morar em Guarulhos em 1974, onde se casou, teve seus filhos e onde fortaleceu sua dedicação à valorização da cultura regional brasileira. Um de seus primeiros livros feitos a partir da técnica do cordel é "O Romanceiro", que foi reeditado em 2005, a partir de um financiamento do Funcultura. "Meu coração se divide, sendo metade de Cajazeiros, onde nasci, e a outra de Guarulhos, onde faço este trabalho há 30 anos, como tributo por ser nordestino e brasileiro."

João Gomes de Sá, outro poeta que veio parar em Guarulhos, conta que começou a escrever cordéis para reviver as histórias de sua terra, assim que chegou a São Paulo, em 1984. "Sou do sertão de Alagoas, onde há repentistas e cordelistas nas feiras, mercados, festas das padroeiras, vendendo seus próprios folhetos ou de outros autores. Escrever em versos e sobre a minha terra é como rememorar todas essas histórias", disse o cordelista que tem cinco histórias publicadas, todas escritas a partir da métrica do cordel.

Sá ressalta que a forma com que o cordel se apresenta não é o mais importante, mas sim o texto em si, que é apresentado a partir de uma mesma técnica. "Durante muito tempo o cordel era apresentado apenas em forma dos tradicionais folhetos, mas hoje as grandes editoras passaram entender que trata-se de um gênero literário e também estão publicando essas histórias em livros comuns", garante o poeta, que ultimamente está trabalhando na adaptação do clássico "Alice no País das Maravilhas", em forma de cordel.

Para o presidente da Academia Guarulhense de Letras, Castelo Hanssen, além da beleza das histórias, o cordel também o faz relembrar sua infância. "Embora eu não seja nordestino, desde pequeno comprava os livrinhos ou cartilhas de cordel, que foi uma das leituras preferidas da minha infância", assume o poeta, que confessa já ter arriscado fazer textos com esta estrutura. "No meu livro "Um Cego Fita o Horizonte" tenho duas poesias em forma de cordel." De acordo com Hanssen, embora o cordel seja um resgate à literatura medieval, conhecida mundialmente, ele acabou ganhando raízes no Nordeste brasileiro. No entanto, ele lamenta que a maioria dos nordestinos não cultivem esta manifestação cultural, mais procurada por intelectuais. "Com a dispersão dos nordestinos pelo Brasil, o cordel foi caindo no esquecimento. Acredito que no interior do Nordeste as pessoas ainda o cultivem, mas infelizmente em São Paulo ele não tem a mesma força."