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  06 de fevereiro de 2010 • 23h58 • atualizado dia 07 de fevereiro às 00h02.
Divulgação
Eles não fazem sexo e dizem passar muito bem sem, mas enfrentam preconceitos
Na era do desejo, assexuados querem ser reconhecidos
Andréa Ponte Souza
Da Redação
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A sexualidade está em toda parte, das mensagens mais ou menos sutis da publicidade até as cenas explícitas na televisão. É nesse contexto, no qual o sexo passou de tabu a uma condição fundamental para a felicidade, que um número cada vez maior de pessoas se autoproclamam assexuadas.
Uma rápida pesquisa no Orkut revela pelo menos quatro comunidades em português de pessoas que afirmam não ter nenhum interesse por sexo. “Se você não liga para sexo e não entende quem é compulsivo por isso, essa é a comunidade perfeita para você”, diz uma delas, com 927 membros. “Quem precisa de sexo? Vamos ler um livro”, diz outra com 1.224 membros. Há pelo menos outras duas com 375 e 200 integrantes.
A assexualidade já virou bandeira nos Estados Unidos. A Aven (Asexual Visibility and Education Network), que divulga ter 30 mil membros e se diz a maior comunidade de assexuados do mundo, se juntou à Parada Gay de São Francisco no ano passado carregando faixas onde se lia: “It’s Ok to be A” (é ok ser A, de assexuado). Mas a falta de interesse pelo sexo também tem sido cada vez mais assumida e defendida no lado de baixo do Equador onde, como diz a música, “não existe pecado”.
“Aos 13, 14 anos, meus amigos e amigas estavam interessados em dormir com a maior quantidade de garotas e garotos que poderiam conseguir, mas eu não via graça nenhuma nessas atitudes. Creio que foi nessa época que me entendi como assexual”, diz aos 24 anos o guarulhense Jonas (nome fictício).
E ele não é um solitário na cidade: “Conheço umas 100 pessoas assexuadas. Tenho maior afinidade com cerca de 30 delas, somos realmente amigos. A maioria conheço da internet, mas muitos conheço pessoalmente: pessoas que estudaram comigo, alguns conheci por outros amigos”, diz.
Jonas define os assexuados como “pessoas que não gostam de sexo, não sentem prazer com sexo, não colocam o sexo como prioridade na vida e acham outras atividades que as satisfaçam”. Ele admite já ter sentido desejo pelo sexo oposto e esclarece, “é como um amor platônico. É tudo muito lindo na teoria, mas você sabe que não vai acontecer”. Jonas conta que é virgem e que já se masturbou “algumas vezes na vida, principalmente na adolescência”, mas há muitos anos não “pratica mais”.
A opção por não revelar a identidade se explica pelo preconceito do qual Jonas diz ser vítima. “Quase todos acham que sou homossexual porque meu último namoro foi há 10 anos e não me envolvi com ninguém desde então. Alguns vizinhos dizem coisas ruins às vezes, pequenas fofocas que se tornam grandes, e verdades distorcidas. Muitos me evitam”. O perfil de Jonas no Orkut é falso. Ele participa de quatro comunidades: uma é de assexuados, as outras três são sobre depressão e timidez.
AJUDA EM BLOG
Foi para mostrar aos que não gostavam de sexo que eles não deveriam se sentir “anormais”, que o pernambucano Júlio Manoel Timóteo Neto, 18 anos, resolveu criar um blog sobre assexualidade. O Assexualidade – www.assexualidade.com.br/blog/ – começou em abril de 2009, com cerca de 20 visitantes por semana. Menos de um ano depois, a página recebe, segundo Júlio, quase 400 visitas semanais. Noventa por cento delas, informa ele, chegam ao blog por meio do Google.
O irônico da história é que, acredita o blogueiro, a maioria de suas visitas é de pessoas sexuais (que praticam ou sentem interesse por sexo). “Outro dia chegou um homem super frustrado porque o desempenho sexual dele não era o ‘ideal’; a relação sexual não durava os 13 minutos ideais que ele havia visto na TV”, conta Júlio.
Para Júlio, isso é um exemplo de como a sociedade “vende” o sexo às pessoas. “Se você não gosta de sexo então você tem problemas mentais. Ser diferente na nossa sociedade é ser doente”, diz um texto de seu blog. Júlio chama a isto de “opressão sexual”. Para ele, a sociedade e a mídia impõem o sexo como necessidade às pessoas. “Muitos querem fazer sexo por razões que não são necessariamente o sexo, pode ser por dinheiro, fama, prestígio ou valorização”.
Ele foi um deles. Diz que já tentou se interessar por sexo simplesmente para não se sentir anormal. “Não sei por que exatamente, mas nunca aprendi a ser sexual. Até que aproximadamente aos 13 anos, quando todos os meus amigos estavam frenéticos por sexo, eu comecei a me sentir diferente e chateado.”
Por necessidade de “ser igual”, ele chegou a beijar uma garota. “Não foi nada agradável”, conta. Júlio é virgem, diz não sentir atração pelo sexo oposto nem pelo mesmo sexo, e não hesita quando o assunto é masturbação: “Não, não sinto vontade”, responde com tranquilidade.
Ele conviveu com o peso de ser diferente por muitos anos até que descobriu o site da Aven. “Foi um alívio e uma transformação”. Desde então, diz, parou de tentar ser o que não era, fez novas amizades e agora ajuda pessoas que, como ele, já se sentiram sozinhas.
Sexo não, amor sim
Nem todos que se dizem assexuados são solteiros convictos. Nas comunidades virtuais, há muitos homens e mulheres sonhando com um relacionamento amoroso sem sexo. “Abraços, mãos dadas, companheirismo, muito diálogo, carinho, compreensão e durabilidade do relacionamento”, é assim que Sylvia (nome no Orkut) define seu relacionamento assexuado ideal.
“Procuro um namorado assexuado. É meu maior sonho”, diz Carine (nome no Orkut) no mesmo tópico de debate da comunidade. Outra participante, Patrícia, responde: “muito difícil, por isso nem procuro.”
- Comentários...
 
Júlio
Ótima reportagem, bastante objetiva e organizada. Mostrou várias perspectivas diferentes. É importante para a sociedade entender o assunto e ajudar outras pessoas que compartilham de pensamentos semelhantes.